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O Mecanismo da Fé

Autor: Pedro Almeida

Via: Bule Voador

A fé funciona até hoje porque se baseia num mecanismo cíclico: quanto mais absurda for uma crença, mais fé é necessária para aceitá-la. E desvios da fé – as dúvidas – são distúrbios não desejados pelo plano divino – o pecado, entre outros nomes.

Só que os conceitos de pecado e desvio da fé só fazem sentido perante a óptica divina, quando se aceita a inerrância de uma determinada crença. Em resumo: para ter fé, é preciso acreditar e para acreditar, é preciso ter fé.

É estranho de ver que é quase como se a fé fosse uma entidade benéfica, uma virtude a ser perseguida e admirada, enquanto o ceticismo e o questionamento fossem malévolos à dita alma humana.

Bem, não é isto que a história nos mostra com as conquistas que a dúvida nos trouxe na busca de um melhor entendimento do mundo natural…

“Isto a exime do trabalho mental que é formular condutas éticas próprias”

O fator determinante para que uma pessoa aceite uma crença absurda é sua incapacidade de conciliar o bem estar de simplesmente ser com uma realidade mais dura e menos confortável: uma pessoa prefere acreditar no criacionismo ou design inteligente porque isto faz dela uma pessoa especial, projetada pelo próprio criador do universo. Ou na vida após a morte, porque isto a faz sentir que tudo isto aqui tem um significado e objetivo acima do racional. Ou prefere defender que moral só pode ser um conceito absoluto, porque isto a exime do trabalho mental que é formular condutas éticas próprias balizadas pelo bom senso e bem estar humano e social.

Bertrand Russell já dizia: “Salvar o mundo requer fé e coragem: fé na razão, e coragem de proclamar o que a razão mostra ser verdadeiro.” Negar isto faz surgir um efeito bem nefasto da fé pura: a seletividade evidencial e teórica.

Pessoas que negam o Evolucionismo, por exemplo, vão exigir evidências atrás de evidências para todo simples exemplo de explicação evolucionista que seja proposta para um comportamento, característica, processo ou espécie.

“Invalida o grau de certeza que qualquer evidência pode ter”

Uma evidência que seja condizente com o previsto pela Teoria da Evolução por Seleção Natural será prontamente questionada quanto à sua relevância. Vão cismar que são argumentos puramente especulativos, pois negam o aval que uma Teoria Científica tem para prever resultados baseados nas leis e mecanismos que a constituem, estas sim, provadas com evidências experimentais e não ainda refutadas e substituídas por um melhor modelo. Teimarão que ninguém pode saber com certeza absoluta, ou que tal evidência é um indicador, porém só especulação no final.

Chamo isto de “Método Extra-Científico”, porque ele invalida o grau de certeza que qualquer evidência pode ter para validar um ponto, mesmo quando sustentado por uma Teoria já bem embasada. Extrapola a metodologia científica formal. Isto não é ceticismo científico saudável; isto é absolutismo evidencial. Não é um conceito sequer prático.

No entanto, estas mesmas pessoas, que num dado momento exigem das Teorias Científicas evidências observacionais, empíricas, acima de qualquer dúvida ou especulação lógico-racional, em um outro momento estarão aceitando pseudociências e explicações sobrenaturais, na total ausência de evidência com um mínimo de valor epistemológico.

“A beleza que a Natureza tem por ser somente natural, e não sobre”

São pessoas que negarão prontamente a idade de 4,54 bilhões de anos do planeta Terra em detrimento de meros 10 mil anos de história contada na Bíblia, às custas de argumentos tão sólidos quanto “a datação radiométrica não é confiável”. Mas, neste caso, a Bíblia é sim, confiável – porque é. Ponto final. Tem evidência melhor? Alguém me prova errado? Então eu tô certo. E não, sua evidência não me convence o suficiente.

Carl Sagan é quem tinha razão: “Não é possível convencer um crente de coisa alguma, pois suas crenças não se baseiam em evidências. Baseiam-se numa profunda necessidade de acreditar.”

Isto resume o meu problema com a fé: sua seletividade e pré-conceituação diante de explicações que poderiam ser antes separadas em plausíveis ou não. Sua argumentação cíclica. E principalmente sua arrogância em negar a beleza que a Natureza tem por ser somente natural, e não sobre.

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