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O que a Ciência nos responde?

Autor: Pedro Almeida

Via: Bule Voador

É uma tremenda distração esperarmos do conhecimento científico nos preencher com explicações existenciais e os sentidos do ser e estar aqui. A Ciência é um corpo de conhecimentos e métodos que caminha para a solidificação por rigorosos meios. Mais que isso, é também um modo de pensar e aplicar a experiência, a observação. Mas a Ciência, como a conhecemos, não serve para responder os “porquês”. A Ciência nos responde os “comos”. E longe de ser uma limitação, é o jeito como a banda toca para executar uma sinfonia – quanto ao ouvinte, cabem suas sensações musicais.

“Ao dizer que a Ciência explica, estamos nos referindo ao “como” de um fenômeno natural.”

Não só é uma distração achar que a Ciência vem para responder os “porquês”, como também é um erro. O objetivo principal de toda matéria de estudo científico é formar modelos da Natureza, modelos estes que reproduzem, com exatidão experimental, fenômenos observáveis e perceptíveis. O objetivo está na síntese: partir de modelos para tanto explicar quanto criar. Eletrônicos são baseados em modelos de circuitos elétricos, pontes são baseadas em modelos de mecânica, projéteis são baseados em modelos de balística e aviões em modelos de aerodinâmica.

Ao dizer que a Ciência explica, estamos nos referindo ao “como” de um fenômeno natural. Muitas das vezes faremos a pergunta “por que?”, mas estaremos nos referindo, na realidade, a um “como”. Como um núcleo radioativo decai, como planetas e estrelas podem se formar, como a vida pode surgir na presença de determinadas condições físico-químicas, como a luz se propaga e interage com a matéria. Tente responder a razão de um núcleo instável emitir um nêutron aleatoriamente, ou de a gravidade existir e puxar as coisas para baixo, ou de a energia sempre tender ao ponto de menor potencial e da entropia sempre tender a um máximo, ou mesmo o porquê da luz se comportar como onda e partícula ao mesmo tempo. Por que? Por que as coisas são como são?

“Seus modelos servem para predições passadas e futuras.”

A simples tentativa de atribuir um “porquê” aos fenômenos naturais faz a explicação fugir do contexto da Ciência. É lógico que não existirá, jamais, Ciência livre da filosofia, como argumenta Dennett. Mas nisto ele se refere à filosofia de como se constrói o pensamento científico e seus métodos, e não que a Ciência deva, obrigatoriamente, responder aos “porquês” em última instância.

Afinal, o que a Ciência nos responde? Ela nos responde como viemos parar aqui, como podemos existir ou como vai, provavelmente, ser o dia de amanhã. O Sol vai, muito provavelmente, nascer ao leste, o dia vai provavelmente ter 24 horas, e você vai ter que absorver mais energia do que gastará. Seus modelos servem para predições passadas e futuras. Cabe a nós cogitar os “porquês” de estarmos aqui e de as coisas serem como são, até que a Ciência avance mais uma vez em direção de te fornecer evidências que respaldem ou modifiquem tuas respostas.

“Dizer, com certeza, que a Ciência nunca será capaz de explicar tudo é ser complacente com a idéia de sermos satisfeitos em não entender o universo e a Natureza.”

Mas simplesmente inventar e aceitar algo como verdade não é legítimo. Há o que sabemos, há o que não sabemos ainda – nada disto estagna o avanço científico e o entendimento que temos do mundo. Mas assumir que há o que nunca saberemos é arrogante, tanto quanto dizer que já sabemos tudo. Dizer, com certeza, que a Ciência nunca será capaz de explicar tudo é ser complacente com a idéia de satisfação em não entender o universo e a Natureza. Aparentemente o mundo é unicamente natural e explanável pela Ciência, sim, mesmo que teorias sejam modificadas amanhã – a mutação é no sentido de fortalecer o conhecimento, e não invertê-lo.

Também, assumir que a Ciência não é capaz de explicar os outros supostos reinos do sobrenatural é uma hipótese ad hoc para fugir do compromisso com explicações plausíveis e universalmente compreensíveis. É uma tentativa fútil e desesperada de manter convicções pessoais à custa de se isentar de evidência. Responder os “porquês”, em última instância, caberá a nós, porém o façamos de forma racional e em concordância com as observações do mundo. É, certamente, mais honesto.

“A Ciência avança propondo e testando hipóteses, e não declarando que as questões são insolúveis.” – N. J. Matzke

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