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A Falha no Argumento do Desígnio

Autor: Pedro Almeida

Apesar de ser um argumento batido e antigo, com uma versão até mesmo no livro de Jó (38, 1-7), na Bíblia, o argumento do desígnio permanece, ainda hoje, usual e constante. Seu uso popular mais recente se dá no que os criacionistas tentam defender como “Teoria do Design Inteligente” (DI), que se baseia em assumir que certas coisas não podem ser explicadas pela Evolução e só podem ser consequência de um projeto (design). O argumento, neste caso, é resumido da seguinte forma: seres vivos, como plantas, animais, bactérias, entre outros, possuem estruturas complexas que se assemelham às estruturas que são criadas pelo homem, como máquinas, mecanismos, sistemas de autoregulação, etc. Por indução, é possível inferir que assim como às nossas criações intricadas há o homem como criador, às criaturas vivas do planeta há de existir também um criador.

Uma analogia jamais é uma explicação de um fenômeno.

A defesa do DI é obviamente num argumento por ignorância, ao atribuir uma entidade sobrenatural para explicar a complexidade – isto na verdade é eximir-se da explicação: eu não sei como chegou aqui, só pode ser um criador. Há também um claro tom de analogia, e não de explicação científica: análogo às estruturas feitas por humanos, podemos imaginar um criador de qualidades criativas semelhantes às nossas para explicar as estruturas vistas na Natureza.

Mas uma analogia jamais é uma explicação de um fenômeno, e sim uma tentativa de elucidação por paralelos e semelhantes. Dizer que, assim como alguém que acha um relógio jogado na praia assume um criador para seu mecanismo, devemos também assumir um criador para os mecanismos complexos dos organismos, não passa de analogia simplista: relógios não se reproduzem, não propagam informação genética, não estão sujeitos a mutações aleatórias e a pressões ambientais que orientam possíveis mudanças adaptativas, como sugere a Evolução.

É evidente que o DI não é testável e muito menos falseável, carece de evidências empíricas e tenta construir um caso em cima das supostas falhas no modelo evolucionário ao invés de produzir dados experimentais que comprovem suas hipóteses, por conta própria. DI não é ciência, nem nunca será, pois se baseia em conceitos metafísicos, péssimas hipóteses, ideologia e muita convicção pessoal.

Mentes não existem sem cérebros.

Ainda, a premissa primária do argumento do desígnio, de que para cada criatura há de se ter um criador, falha miseravelmente se considerarmos o seguinte: assumir um criador é assumir obrigatoriamente uma mente criativa, consciente e com faculdades cognitivas, tal qual a mente humana, que é capaz de criar. O conceito de criação está intimamente atrelado à capacidade de criar: produzir e sintetizar por meios conscientes uma determinada propriedade, mecanismo ou idéia; i.e., ser criativo.

O criador é, portanto, obrigatoriamente um ser ou entidade dotado de consciência criativa, no mínimo. Aqui recai o problema principal: uma mente, semelhante ou igual à humana (note aqui que se tem que assumir a imagem e semelhança do criador no ser humano), é requisito para haver consciência criativa. Isto é uma restrição física. Mentes não existem sem cérebros. Mentes são produtos, e não antecessores. Dizer que existe uma mente criadora tal qual num designer é extrapolar para o reino do sobrenatural a idéia de que existem mentes tais quais as dos humanos, que são capazes de criar e serem conscientes, porém imateriais, invisíveis.

Dizer que para todo efeito há uma causa ativa (um criador-causador), é inventar mentes sobrenaturais. É mais cauteloso dizer que para todo efeito existe um mecanismo, assim como um dos mecanismos da evolução é a seleção natural, sendo seguro dizer que isto não é um criador dotado de mente criativa. Além disto, uma estrutura complexa, tal qual a mente, não pode anteceder uma estrutura menos complexa. Estruturas complexas são, por definição, uma conjunção de estruturas mais simples. E se o “criador” é simples, e não complexo, então é obrigatoriamente um mecanismo participante do processo de evolução destas coisas mais complexas, e não uma causa ativa per si. E muito menos uma entidade sobrenatural indetectável.

O argumento do desígnio pega uma propriedade material, a mente consciente, que se origina no cérebro, e a transforma num conceito imaterial e separável do órgão. Extrapola o conceito, dizendo que é possível que exista algo semelhante e superior ao que os humanos desenvolveram ao longo de milhões de anos de evolução, porém imaterial e assumindo o papel para si de criador. Isto soa, no mínimo, como um disparate arrogante.

4 comentrios

  1. Marcelo "Druyan" Esteves says:

    Grande Pedro

    Parabéns pelo blog! Pessoas como você são a vela acesa na escuridão. Sucesso!

  2. Ana Celia says:

    Muito bom …

  3. Roni says:

    Texto ótimo… parabéns!

  4. Daniel says:

    Olá, sou Ateu. Não acredito em um criador inteligente, não acredito que estamos aqui pq este criador desejou e não acredito que este mesmo faça algo por nós. Acredito apenas na fé (fé na cura, fé no sucesso, fé no trabalho, fé no poder da mente humana). Mas ainda tenho dúvidas sobre a questão espiritual, muitas evidências (que podem até ser falsas) me fazem pensar que realmente pode existir consciência após a morte como espíritos e tal (mas nada de céu e inferno ou julgamento), uma destas pessoas q me fez pensar que pode realmente existir algo neste sentido é a tal de Theresa Caputo. O que você pensa sobre a existência dos espíritos que podem carregar nossa consciência em uma forma/dimensão que a ciência possa ainda não ter detectado? Você acredita em algo neste sentido? Pensando que não temos evidência de nada, gostaria apenas de saber o que você acredita que ocorre após a morte? Obrigado! E bom texto. Quero receber uma notificação no e-mail q fui respondido!

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