Radiação de Fundo Rotating Header Image

O que você está disposto a negar?

Autor: Pedro Almeida

Infelizmente é bem comum ouvir uma ou outra pessoa dizendo que “não acredita nessa tal Teoria da Evolução” ou que “não engole essa de Big Bang”, como se fosse uma proposição que está sujeita à crença ou descrença das pessoas. Teorias científicas não são ideias que foram tiradas de trás da orelha por um cara de jaleco branco e cabelo desgrenhado, sentado numa mesa às cinco da manhã de uma segunda-feira, enchendo a cara de café e rabiscando uma folha A4 com um lápis 6B. Teorias científicas são modelos da Natureza, da realidade do mundo, embasados por evidência empírica e observáveis em experimentos reprodutíveis. Não é como se estivessem abertas à discussão de “creio – não creio” para serem consideradas verdadeiras.

O problema é um claro exemplo de negação, porque muitas vezes há discordância entre convicções pessoais e realidade comprovada cientificamente. Então para alguém se dispor a negar uma teoria científica, esta pessoa tem que estar disposta a negar tanto as evidências que a embasam quanto os métodos que foram usados para produzir estas evidências.

Por exemplo, citemos 2 das evidências mais fortes para a Teoria da Evolução (TE): o registro fóssil cronologicamente de acordo e a evidência genética da ancestralidade comum.

“Alegar que a datação radiométrica é falha é fazer espantalho.”

Para negar o primeiro, uma pessoa tem que negar a datação radiométrica (que é o que usualmente ocorre), já que não dá pra negar a existência de um fóssil. O argumento mais usado é, portanto, de que a datação radiométrica é falha. Por “falha” estas pessoas estão grosseiramente assumindo que determinadas imprecisões ou limitações de um método de datação são de fato falhas, tomando o todo pela parte num claro erro de raciocínio.

Alegar que a datação radiométrica é falha é fazer espantalho. É assumir que não temos a capacidade de prever taxas de decaimento de materiais radioativos com precisão satisfatória. Se fosse o caso, não poderíamos também ser capazes de construir e controlar reatores nucleares ou construir relógios atômicos, que são os mais precisos do planeta, por exemplo.

“O código genético de todos os seres vivos, desde bactérias até seres humanos, é virtualmente idêntico.”

Já a ancestralidade comum é comprovada ao se comparar o código genético de diversas formas vivas. O código genético é como se fosse uma tabela de transcrição, um conjunto de regras pelas quais a informação genética codificada no DNA (ou mRNA) pode ser transcrita na forma de proteínas nas células. Numa analogia simples, o código genético é a “língua” na qual foi escrita uma “receita” de aminoácidos – os “ingredientes” – para sintetizar proteínas. O surpreendente é descobrir que o código genético de todos os seres vivos, desde bactérias até seres humanos, é virtualmente idêntico, o que indica fortemente que todos estes seres derivam de um ancestral comum que desenvolveu toda a base do maquinário bioquímico moderno, e que provavelmente surgiu há 3,9 bilhões de anos.

Ao negar a ancestralidade comum, a pessoa está disposta a negar um dos métodos pelo qual ela pode ser comprovada: o sequenciamento do DNA. Se não temos capacidade de sequenciar o DNA de forma adequada, temos falhado em usar o método na ciência forense para encontrar criminosos, nos atestados de paternidade, no estudo de doenças e nos diagnósticos médicos.

Quem nega a evidência experimental, nega o método pelo qual ela foi obtida, métodos os quais possuem não só diversas aplicações, como diversas comprovações de que funcionam, sim, nos mais diversos campos. Quem está disposto a negar isto, está disposto a aceitar também sua invalidade para todo caso?

Comente