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Realengo e sobre como a religião envenena tudo

Christopher Hitchens é quem estava certo em sua frase-subtítulo do seu famoso livro “God is not great”: por religião, justifica-se o injustificável e suprime-se facilmente qualquer remorso por falta de escrúpulo.

Ontem, uma escola em Realengo foi brutalmente atacada por um ex-estudante, como todos sabem, que deixou um saldo de, até o momento, 13 mortos, incluindo o assassino-suicida. O episódio é um caso inédito no Brasil, tendo ficado conhecido como Massacre de Realengo.

O atirador deixou uma carta suicida, e aí começa meu problema. Lendo a carta, nota-se o forte teor religioso que o assassino usa para tentar racionalizar o ato hediondo:

“Preciso de visita de um fiel seguidor de Deus em minha sepultura pelo menos uma vez, preciso que ele ore diante de minha sepultura pedindo o perdão de Deus pelo o que eu fiz rogando para que na sua vinda Jesus me desperte do sono da morte para a vida eterna.”

Por mais que não tenha sido um ato de extremismo religioso, não dá para negar a influência da mitologia cristã tanto na justificativa quanto na descrição do tratamento que deveria ser dispensado ao corpo do suicida. Termos dignos de uma tal Bíblia sempre obcecada com a vida sexual alheia, como impuro, fornicador, adúltero, casto:

“Primeiramente deverão saber que os impuros não poderão me tocar sem luvas, somente os castos ou os que perderam suas castidades após o casamento e não se envolveram em adultério poderão me tocar sem usar luvas, ou seja, nenhum fornicador ou adúltero poderá ter um contato direto comigo, nem nada que seja impuro poderá tocar em meu sangue, nenhum impuro pode ter contato direto com um virgem sem sua permissão, os que cuidarem de meu sepultamento deverão retirar toda a minha vestimenta, me banhar, me secar e me envolver totalmente despido em um lençol branco que está neste prédio, em uma bolsa que deixei na primeira sala do primeiro andar, após me envolverem neste lençol poderão me colocar em meu caixão.”

Engano meu: dá pra negar sim. Prováveis cristãos, sempre com sua mania de tapar o Sol com a peneira, tentam passar por cima de toda a evidência da carta, que aponta para uma pessoa com prováveis distúrbios mentais que usou de mitologia católica-cristã para justificar seus atos, e dizem que ele era, na verdade, um seguidor do islã:

“‘Ele era muito estranho, não tinha amigos, vivia na internet’, disse a irmã. ‘Ele fala desse negócio de muçulmano’”. […] “Segundo o coronel, a carta era ‘confusa’ e apresenta conteúdo ‘fundamentalista islâmico’”.

Minha ironia não me deixa mentir: quem leu a carta na íntegra, nota logo de cara o forte teor fundamentalista islâmico (rá!). E o feliz comentário “esse negócio de muçulmano” parece ser evidência suficiente do conhecimento da irmã acerca das convicções pessoais do jovem.

E é isso mesmo que tentaram passar. Dentro da grandessíssima população islâmica que existe no Brasil, temos um maluco, que fala como fiel católico, mas é, na verdade, muçulmano. Bom, parece que agora terão que provar que Jesus é uma divindade no islã. Fácil, essa.

Como dizem por aí, tragédias sempre trazem a tona o que há de melhor e pior nas pessoas: de um lado, empatia e solidariedade às vítimas; de outro, tentar mostrar que o SEU amigo imaginário é pior que o MEU amigo imaginário, e por isso um maluco que entra armado numa escola e mata 12 não pode ser amigo do meu amigo imaginário também. Típico.

4 comentrios

  1. asd says:

    Correlation does not implies in causation.

  2. Pedro Almeida says:

    em q momento eu disse no texto q o cara matou PORQUE era religioso? isto seria uma relaçao de causação.

    red herring tb é uma falácia, nao sei se sabe.

  3. Fernando says:

    Eu acredito que a crença na vida após a morte junto com outras, como o perdão de Deus e o reencontro com familiares além-túmulo, facilita muito a justificativa (e a pré consciencia) de quem vai cometer uma chacina e depois se suicidar.

    Alguem sem crenças infantis e com a consciencia de que a vida é única e preciosa teria mais dificuldade em justificar seus atos. Eu como cético e ateu, por exemplo, sempre falo que antes de cometer qualquer crime, mesmo se estivesse na pobreza suprema e sem perspectivas, mesmo que estivesse com a maior raiva do mundo, preferiria achar qualquer outra saída, como viver de modo pré-histórico ou outra coisa, do que roubar ou cometer qualquer crime e perder minha liberdade psicológica e física.

    Cadê o Datena pra falar que esses assassinos e ladrões não tem Deus no coração? Que são todos ateus? Ignorantia datenai

  4. Sergio Viula says:

    Isso aí, garoto! Que bom que você postou aqui. Adorei o último parágrafo… 😉

    Abraço grande,
    Sergio Viula

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