Radiação de Fundo Rotating Header Image

Não, boas intenções não contam

Autor: Pedro Almeida

Existe uma expressão interessante, clássica, que eu costumo usar muito nessas horas: “De boas intenções, o inferno está lotado”. Mesmo que na sua forma original ela seja apelativa a uma crença específica que eu desprezo (a de céu e inferno), vem a calhar muito bem se usarmos uma interpretação figurada, simbolista.

Não, eu não acho que boas intenções contam, per se. Não acho que temos que “pegar leve” com aquele so-called moderado islâmico que quer estreitar relações com o ocidente, mas que tem a convicção de que o islã é a melhor e mais exata resposta teológica, só porque sua intenção é a pacífica convivência entre os dois “mundos”.

Não acho que temos que ser “educados” em responder publicamente, sem sarcasmo, o pastor que se diz ex-gay e se faz de educado para com os ateus para ganhar espaço nobre (uma entrevista!) num blog cético visado, como o Bule.

Este contentamento de que temos que ser bonzinhos com os maus que se comportam diante de nós (mas que nas nossas costas são outras caras) é ingenuidade. Implica que, já que fulano ou ciclano tiveram boas intenções, bem, temos que aceitar ou ao menos tolerar suas posições. É tapar o sol com a peneira.

É ingenuidade porque é fechar os olhos pra o potencial desastroso que há em suas posições, escondidas atrás de suas fachadas de educação. E é um puritanismo desnecessário, um falso moralismo vestindo uma inércia argumentativa, uma inércia em exercer o direito de discordar veementemente.

E como dizem, para o mal prevalecer, basta os bons ficarem calados, inertes.  Basta não nos indignarmos com os que praticam ou defendem posições hediondas em nome de sandices, só porque eles o fazem de forma sofisticada e com palavreado educado.

Se fosse assim, eu já estaria concordando em gênero, número e grau com o R. R. Soares – ele certamente tem ótima intenção em seu trabalho, à parte do lucro, e me soa como uma pessoa bem educada e serena.

Sarcasmo é largamente diferente de grosseria, principalmente se quem foi vítima dele faz por merecer cada gota de seu veneno. Ninguém tem o direito de viver uma vida sem ser ofendido, sem ser desafiado intelectualmente, sem ser criticado energeticamente por seus preconceitos.

4 comentrios

  1. Rogério Teixeira says:

    E Viva o Olavo de Carvalho!, rs

  2. Poxa, este assunto sobre moralidade sempre me deixa meio chateado, tanto quando falamos de religião quanto de ateísmo. Sou ateu, por vezes muito radical, cada dia mais gosto menos de qualquer tipo de fé e até das demonstrações que para mim é a maior prova de insanidade e incapacidade mental… mas bem, depois de chamar sem querer teístas de incapazes como fiz agora, sou contra sim matanças e todo tipo de coisa horrenda, porem, não gosto da idéia de não olharmos nossos erros para poder julgar. A vida já me levou a cometer coisas ruins, nenhum crime, rs, mas pequenas traições em amizade, ou sei lá que mais, e me pergunto, este mundo politicamente correto realmente existe? Amo tanto os Carneiros e vejo que a Lei das Selva faz homens agirem em prol da sobrevivencia, fazendo coisas que nem sempre são veneraveis, mas quem poderia culpa-los? Pensarei nisso, voltarei mais vezes no blog porque adorei, parabens rapaz.

  3. Roberto Pereira says:

    E afinal a resposta do pastor foi publicada no bule?

    Li todos os 190 comentários e fiquei morrendo de curiosidade de ler o e-mail dele a que vc fez referência quase no final.

    Como o post lá já está fechado para comentários, peço licença a você para colocar aqui o que escreveria lá – se não quiser não precisa publicar esse comentário.

    Não há “ex-gay”, da mesma forma que não há ex-hétero.

    Parem com isso.

    Não é porque alguém conhece (conhece como? com que intimidade pra fazer essa afirmação?) um tal “‘ex-gay’ que se casou” que se pode dar ares de credibilidade a essa loucura fascista-nazista de terapias de conversão que nada mais são do que LAVAGEM CEREBRAL.

    Não há que se respeitar e nem se dar espaço a crimes como esse. É proibido fazer terapia de “cura” de gays no Brasil por psicólogos. O CFP proíbe em norma isso. E inclusive um desses pastores fanáticos propôs projeto de lei para retirar essa norma do regulamento profissional do Conselho Federal de Psicologia. Mais um absurdo dessa cruzada antigay que esses malucos estão fazendo pelo país todo.

    A medicina e a psiquiatria já retiraram oficialmente a homossexualidade da lista de doenças há mais de 20 anos. Ainda que desde os anos 50 já existissem pesquisas sérias comprovando a normalidade dos homossexuais. Que ainda assim existam pessoas que se negam a aceitar a evidência dos fatos em nome de um preconceito e de uma intolerância criminosa só os torna ainda mais merecedores de críticas e não de espaço para proselitismo doentio.

    O que subsiste é o preconceito insano alimentado por religiões, por fanáticos e por demagogos hipócritas que usam esse assunto para assustar a população preconceituosa em relação aos homossexuais e com isso angariar votos e dízimo. É um preconceito que se retroalimenta. Por isso é tão persistente em larga parcela da população.

    Por isso esses pastores e demais fascistas combatem com tanta gana qualquer medida destinada a combater o preconceito contra LGBTs.

    Confesso que a princípio certamente a minha resposta ao pastor não seria essa.

    Mas, pensando melhor, sabe o que aconteceria se o Bule desse essa resposta apenas em um “educado” e perfumado e-mail privado?

    O tal pastor conversor de viados sairia por aí papagaiando que o Bule é covarde, porque não lhe deu direito de expor posição contrária. Que há “censura”, “mordaça gay” como eles gostam de falar agora.

    A resposta do Bule foi necessária. Não se tratou de molecagem e nem de “desrespeito” ao “humilde e educado” missivista. Que aliás já demonstra má-fé quando dá todo seu currículo, mas evita dizer que é pastor evangélico. Aham, senta lá, Cláudia.

    Foi direto ao ponto: Se vc é “ex-gay”, vc é um gay egodistônico e deveria soltar a franga e se assumir sua verdadeira orientação.

    Outra coisa que muitos aqui se equivocam é imaginar que o gay não consiga ter relações com mulheres e se tem e consegue até ter filhos então é um “ex-gay curado”.

    É verdade alguns não conseguem mesmo, mas muitos conseguem. Eu consigo, embora não tente e nem me considere “bissexual”. Sei muito bem onde está meu desejo.

    Pra mim é E SEMPRE FOI natural. Agradeço aos meus pais que nunca me enfiaram fanatismo religioso na cabeça e eu pude me aceitar numa boa quando “descobri” o que era.

    Por fim, como o Eli Vieira disse muito bem, antes de se condoer com essa raposa em pele de cordeiro, se coloquem no lugar de tantas pessoas, muitas vezes quase crianças que sofrem o horror absoluto na mão desses fanáticos. Lavagem cerebral não é brincadeira. E nem se pode dar respeitabilidade a quem pega esse tipo de coisa.

Comente