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Deus é a gravidade

Autores: Pedro Almeida e Francisco Boni

Deus fazendo as coisas acontecerem.

“Não é necessário conhecer a lei da gravidade pra saber que as coisas caem – da mesma forma, eu sei que Deus existe”.

“Deus é como o ar – você não o vê, mas pode senti-lo”.

Costumo dizer que se você tenta demonstrar alguma coisa por meio de uma analogia, é porque você não sabe do que está falando e está, muito provavelmente, errado sobre este assunto.

Uma analogia não prova nada – não é a função de uma analogia demonstrar como uma linha de pensamento leva a uma conclusão lógica. Lança-se mão de uma analogia quando se quer explicar um fenômeno já demonstrado ao traçar um paralelo mais inteligível.

Se assim fosse, a seguinte analogia seria uma demonstração da inexistência de Deus:

“Deus é como Papai Noel – nos ensinam desde pequeno que ele existe, mas ninguém nunca viu e todos descobrem depois que ele na verdade não existe”

O absurdo deste tipo de argumentação fica mais fácil de ver quando se invertem os papéis.

Por mais que as analogias acima sejam comoventes, existem diferenças básicas entre Deus e a gravidade, ou o ar.

É possível demonstrar, para si mesmo e para qualquer pessoa, que a gravidade existe, em experimentos simples como derrubar um objeto e vê-lo cair, experimentos estes que podem ser repetidos ad ӕternum, sempre com o mesmo resultado – a queda de um objeto sob aceleração constante.

Da mesma forma, pode-se demonstrar a existência do ar, gás dotado de massa que pode ser pesada, e acondicionado em recipiente cujo volume pode ser medido, possuindo agitação térmica que pode ser detectada por termômetros e movimento que pode ser observado na forma de vento.

É fato que não existam evidências para a inexistência de Deus, de forma generalizada. Mas o que se espera, neste caso, é a mínima quantidade de evidências para sua existência, acima da dúvida razoável.

Essa quantidade mínima de evidências para existência constitui o argumento de que existência é um predicado conceitual, composto por diversas variáveis. A empreitada científica trabalha afirmando que o conceito de existência é cumprido se o modelo-teoria a ser analisado prevê, com confiança, características de um fenômeno reproduzível. Se esse fenômeno é previsível, então ele existe. Quando dois ou mais corpos teóricos possuem os mesmos erros de generalização e indução, então o modelo mais simples deve ser preferido, porque a simplicidade é desejável em si mesma e empiricamente justificada – menos componentes a serem considerados. Um exemplo popular vem da astronomia, em que se favorece o modelo heliocêntrico de Copérnico do sistema solar em detrimento do modelo geocêntrico de Ptolomeu.

Em termos de erro preditivo, os dois modelos são indistinguíveis, já que eles preveem as mesmas trajetórias, em diferentes referenciais. O modelo de Copérnico é preferível por seus méritos intrínsecos de simplicidade (heurística da Navalha de Occam – lex parsimonӕ). Mas nem sempre a simplicidade é fácil de ser constatada e nem sempre se descobre com facilidade quais modelos induzidos são os mais compreensivos e consistentes com o modelo anterior e com observações atuais.

Por exemplo, a experiência de um camponês da Idade Média favorece a teoria da Terra plana, pois é um modelo linear, enquanto o modelo esférico é quadrático e não é melhor em explicar as observações cotidianas de um camponês que vive na Idade Média.

Modelos como o da Terra plana talvez nunca precisassem ter sido atualizados caso não tivéssemos decidido circunavegar o globo. Mas isto não o faz mais preciso ou correto – apenas seu valor prático era suficiente. Em contraste, o valor prático de um deus é exclusivamente pessoal, já que nenhuma previsão precisa levar sua existência em conta, necessariamente.

Outro exemplo é a da Física Relativística vs. Física Newtoniana. No final, escolhemos a explicação mais simples que é consistente com os fenômenos observados. É mais fácil aceitar a Teoria da Relatividade Geral do que aceitar correções grosseiras na Lei Gravitacional de Newton para explicar o comportamento errático do periélio da órbita de algum planeta, já que a Teoria da Relatividade Geral explica mais do que uma teoria Newtoniana com correções para aceitar hipotéticas anomalias na gravitação.

A Teoria da Relatividade Geral é mais complexa do que a Teoria da Gravitação de Newton, estabelecendo uma lista maior de suposições. Então a complexidade não deve ser a razão para ela ser finalmente decidida como a preferida. A preferência vem do fato de que correções na teoria de Newton, para aceitar anomalias erráticas na gravitação, diminuem o poder preditivo da teoria, pois estabelece que precisamos aceitar fatores randômicos e erráticos que carecem de sustentação teórica e empírica.

A Teoria da Relatividade Geral, apesar de ser mais complexa, não precisa aumentar a complexidade do mundo natural no qual tentamos estabelecer previsões, postulando anomalias.

O caso da hipótese de um criador, dotado de agência, com propriedades mentais humanas (vontade, criatividade, senso moral), com capacidade de processamento de informações infinita, ser responsável pela organização de qualquer estado de organização do universo, é uma tentativa de estabelecer uma anomalia.

É uma anomalia porque uma entidade que exibe propriedades mentais, muito provavelmente, só emergiu aqui na Terra, através de processos naturais típicos a este planeta. Dizer que um criador sobrenatural existe antes da propriedade natural requer automaticamente negar toda a eficiência e capacidade da epistemologia naturalista em todas suas formas e, por conseguinte, da ciência. É equivalente a dizer que almas existem e que a mente de seus amigos e parentes persistem sem substrato mensurável ou que os dinossauros não foram extintos, apenas voltaram para sua dimensão espaço-temporal de origem.

A credibilidade da natureza de nossas seleções investigativas é mais apropriada do que as propriedades dos produtos finais desta, que são as nossas teorias e modelos que podem, sim, serem complexas, se o processo de indução demandar. O fato de que há um número grande de equações simples que se provaram eficientes para modelar vários fenômenos físicos não indica que o mesmo irá acontecer para um número variável de fenômenos, muitas vezes de complexidade cada vez maior, como é o caso da biologia molecular, medicina, finanças, geologia e sistemas cibernéticos – modelos caóticos, por exemplo, estabelecem alta dependência de condições iniciais, mas são, ainda assim, modelos teóricos consistentes, determinísticos.

Neste último caso, é também fácil mostrar (e ver) que um conjunto de simples leis fundamentais, verificáveis independentemente, podem ser conjugadas em um corpo teórico maior, modelando estes fenômenos de forma complementar entre si.

A unificação teórica para descrever os fenômenos e o mundo sob a égide única de um deus, ou entidades sobrenaturais em última instância, vai, portanto, na contramão deste modus operandi de construção do conhecimento científico, falhando na sua verificabilidade, capacidade preditiva e aplicabilidade no mundo real, instituindo anomalias desnecessárias.

Deus e a gravidade, na verdade, não possuem nada em comum.

 

 


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(talvez só a tremenda atração por malucos)

 

2 comentrios

  1. […] Radiação de Fundo Deus, o fora-da-lei, fazendo as coisas acontecerem de maneira […]

  2. alex says:

    Atração por malucos?
    Só porque difere da teoria aceita pela maioria( não totalidade) ?

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